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10 de março de 2014
Deus, o nome, ensaio de Anderson Fonseca

Deus, o nome, ensaio de Anderson Fonseca


por Anderson Fonseca

Seria o tempo a sucessão de um mesmo nome? Será a história a diacronia semântica de um único nome?   Segundo a Bíblia, sim. Este livro é a transformação de um mesmo e único nome, Deus, que se revela em cada verso, cada estrofe, cada personagem, como se todos os elementos que constituem a narrativa, fossem um aspecto desse nome, e a história fosse a sucessão do nome em diferentes circunstâncias. Logo, a história na Bíblia é o desenvolvimento de um único nome, e o tempo, a sucessão desse nome que se repete indefinidamente, e os personagens, a sua sombra. Isso leva-nos a pensar que o nome Deus é a realidade subjacente do qual tudo é apenas um reflexo. A literatura seria, portanto – tomando-se a Bíblia como modelo –, o desenvolvimento semântico de um único nome. O nome Deus repete-se e se transforma em literatura, e a literatura é, quanto a esse nome, a historicidade da palavra. O nome sucede-se no tempo, ou o tempo é a sucessão desse nome no pensamento. No livro de Êxodo, cap. 3, 14, Moisés indaga a Deus seu nome, e Ele responde: “Eu Sou O Que Sou”. Mas o nome ainda não é o Nome, pois lhe falta uma letra que entregaria sua natureza real. O Ser apenas disse a Moisés o que Ele é, não lhe revelou quem, e sim, o quê. Eis outro aspecto do nome, cujo significado é desvelar a natureza do ser nomeado.

Entretanto, a narrativa bíblica nos apresenta outro olhar, o nome não leva à compreensão da essência, porque em qualquer substantivo falta-lhe uma letra, cuja função é trazer à luz a natureza do ser nomeado. Deus não disse Seu Nome, apenas substantivou o que Ele em si é, o É. Ser em si o que é, ou Ser em si o É, revela-nos sua atemporalidade. O nome de qualquer ser é atemporal, a temporalidade surge quando o nome é envolvido pela circunstância. Ser o ser, ser o É, não está em quando, porque o Ser-É-em-si, é um nome a qual não há tempo. O tempo do nome é sua transformação circunstancial segundo outra voz, aí, o Ser-é tornar-se o Ser-será, o Ser-foi, o Ser-seria.

A palavra Ser é verbo, mas também é substantivo, porque nomeia; e, segundo a gramática, é um substantivo abstrato na forma infinitiva. O infinitivo aponta a atemporalidade do nome, se este nome é conjugado pela relação voz/circunstância, torna-se sou, és, é, somos, sois, sereis, e etc. O Nome em si é extemporâneo, mas através da relação com outro nome (de um substantivo com outro substantivo) surge a sucessividade e o Nome passa a sofrer a presença do tempo. Deus é enquanto Nome, contudo a repetição do Seu Nome é a razão da sucessão. Portanto, o tempo seria a sucessão de um mesmo Nome no pensamento. Se Deus é, Ele é hoje, ontem e amanhã; a presença do é, atesta que o tempo é uma ilusão, sua experiência só o é real, devido à relação estabelecida com o conceito que se repete, até por que a repetição de uma mesma ideia admite a negação da relação anterior e o surgimento em seu lugar de uma nova. A literatura é a sucessão desse Nome, e a sucessão do Nome é a causa da narrativa.

Conforme a Bíblia, a narrativa seria a repetição de um mesmo nome em diferentes relações estabelecidas com ele. Chega a um limiar em que não se sabe se o Nome transformou-se ao longo da narrativa (história) ou se a narrativa é a transformação continua desse Nome. Quando se lê a Bíblia está lendo-se a narração de um nome que se transforma ao longo dos séculos.  A Literatura é, portanto, a narrativa de um Nome. Contudo Moisés não conheceu o Nome de Deus, faltava-lhe uma letra e, devido a isso, o Nome se transformou na história, transformou-se semanticamente. A narrativa seria a busca de encontrar a letra que falta ao Nome. A ausência dessa letra levou a atribuição de outros nomes (qualidades) como modo de completar o Nome. Assim, Deus passou a ser chamado de Justo, Santo, Amoroso, Verdade, etc. Essas qualidades que em si são antropomorfismos nascem da necessidade do homem compreender a Deus, porque d’Ele o homem só tem conhecimento um Nome incompleto.

Moisés esperava de Deus saber seu Nome, mas Deus não lhe disse, apenas falou-lhe o que Ele é. Quem sabe Moisés planejasse com a descoberta do Nome dominar o deus que lhe apareceu. Mas ao ouvi-lo, reconheceu a impossibilidade de tal façanha, porque seu conhecimento limita-se a uma palavra, cujo sentido encontra-se na falta. Por mais que buscasse, jamais descobriria quem é através do nome que foi lhe dado, pois ao nome faltava-lhe uma letra. Cabe ao homem, agora, preencher o vazio deixado ao Nome com outros nomes, cuja função principal é qualificar (acidentar) para ser racionalizável. O Nome será interpretado pelo homem por meio da racionalização de Seu vazio. A interpretação fundamenta-se na falta que há no Nome, porque no momento em que é interpretado, o Nome está sujeito a abstrações, i.e., ao receber características que não lhe pertencem para torná-lo entendível. A Literatura, logo, é a letra que falta.

A letra que falta é a razão do Nome ser na narrativa, e a narrativa, a sucessão desse Nome, e enquanto narrativa, o Nome existe. Portanto, Deus existe como narrativa de si mesmo.

Jorge Luis Borges escreveu no poema Uma Bússola:
Todas as coisas são palavras lidas
Na língua em que Algo ou Alguém, noite e dia,
Escreve essa infinita algaravia


Que é a história do mundo. 
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19 de agosto de 2013
A crítica negativa

A crítica negativa



por Anderson Fonseca

A literatura brasileira e sua crítica padecem do mesmo mal que a literatura alemã no século XVIII; enquanto esta teve como mal a subjetividade, aquela tem como mal a objetividade. Todo mal tem um início, e o início deste mal, na literatura brasileira, encontra-se na colonização portuguesa destas terras tropicais.

A expedição portuguesa, sob a ótica renascentista, explorou as águas e a terra da “Índia” orientada não pela surpresa diante do maravilhoso (o indescoberto-descoberto, o oculto, o outro), mas pela via da observação científica, segundo os interesses da coroa e da burguesia lusitana. Assim, quando a nau de Pedro Álvares Cabral tocou a terra desconhecida, o cronista Pero Vaz de Caminha relatou o que seus olhos contemplaram e o que sua mente renascentista compreendeu. Dentro de um olhar histórico (apegado aos fatos) e não sob um estranhamento do real (condição para o maravilhoso), a crônica de Caminha se estrutura. Esta, que pode ser afirmada como a primeira obra literária luso-brasileira, é composta a partir da positividade, i.e., da constatação do real como sendo aquilo que é percebido – o real em sua nudez. A visão objetiva penetra a língua, alcança à semântica, influencia a sintaxe e reinventa a estilística. O primeiro pecado passou de um homem a todos os homens, e todos como ele, pecaram. O pecado é a objetividade.

Embora, no séc. XVIII, não existisse ainda a corrente filosófica do positivismo, pode-se afirmar com certa tranquilidade, que a crônica de Pero Vaz Caminha é um texto positivista. O positivismo já se encontrava na língua portuguesa, nas mercancias, nos portos, nas naus, entre os marinheiros e os comerciantes, entre a classe culta e dominante, e a plebe. Mas, neste momento, o positivismo sai de uma língua para entrar em outra. Ou seja, a objetividade moldou a língua brasileira, e, por sua vez, moldou o pensamento, em seguida, moldou a literatura.

De lá para cá, autores brasileiros vêm publicando obras sob o arquétipo do realismo, reproduzindo a natureza e seus elementos díspares, como a sociedade em narrativas fiéis aos olhos ou ao ego (ainda sim, fiéis). Esta literatura realista, não está livre, porém, permanece presa, acorrentada ao jugo de uma língua metropolitana. Autores como Machado de Assis e Murilo Rubião, são exceções à regra. A literatura está doente, sua doença é a objetividade. Não há – ainda que muitos afirmem – uma literatura bizarra que combine o maravilhoso ao realismo urbano. Há uma literatura indefinida, adoecida pela visão histórica dos fatos. Esta língua não se permitiu a renovação pela escolha de um curso diferente às suas letras, um curso que absorvesse o fantástico como característico de terras sul-americanas; ao contrário, absorveu uma linha cientifica que busca a perfeição da forma ou a adequação do objeto ao arquétipo. Afirmo, a literatura está doente, e muito mais a crítica, a língua é sua raiz, e a raiz está podre.

Presencia-se uma crítica literária que valoriza as literaturas urbanísticas e de periferia – centrais ou descentralizadas –, que se apossam do real positivamente. Há, entretanto, autores que escolheram a via negativa da língua, buscando no real a surpresa do maravilhoso; são poucos, contudo, significativos neste momento de aburguesamento literário. Aburguesamento ou alta classe, assim pode-se nomear o movimento da crítica cuja característica principal é eleger os escritores que estão, a seu ver, representando a língua, oficializando as representações por meio de uma linguagem conativa (função linguística muito em voga nos jornais). A partir do aburguesamento a outra classe é marginalizada (outra forma de classificação, porém, de teor depreciativo); alguns escritores, no entanto, satisfazem-se com a margem e a tornam sua bandeira, sem perceber que com isso apóiam o movimento positivista da crítica literária.

Pede-se uma revisão da crítica, um movimento inverso na língua, uma crítica negativa, que aceite e procure compreender o maravilhoso como outra forma de visão do real. Pede-se uma literatura que rasgue as vestes da objetividade e aceite a subjetividade, que veja no real a sua face mágica, que abandone o realismo e invente outra realidade.

Enquanto a literatura e a crítica estiverem sob o jugo positivista, enquanto a realidade não surpreender, mas apenas for um meio de reflexão sob a condição do homem, reflexão cientifica e filosófica; a literatura permanecerá doente e com ela a língua que a constitui.

Até lá, espero o dia em que um escritor olhe o mundo e diga “Ah!”, ao invés de “Eis aí, algo para se analisar”.

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