Deus, o nome, ensaio de Anderson Fonseca
por Anderson Fonseca
Seria o tempo a
sucessão de um mesmo nome? Será a história a diacronia semântica de um único
nome? Segundo a Bíblia, sim. Este livro é a
transformação de um mesmo e único nome, Deus, que se revela em cada verso, cada
estrofe, cada personagem, como se todos os elementos que constituem a narrativa,
fossem um aspecto desse nome, e a história fosse a sucessão do nome em
diferentes circunstâncias. Logo, a história na Bíblia é o desenvolvimento de um
único nome, e o tempo, a sucessão desse nome que se repete indefinidamente, e
os personagens, a sua sombra. Isso leva-nos a pensar que o nome Deus é a realidade
subjacente do qual tudo é apenas um reflexo. A literatura seria, portanto –
tomando-se a Bíblia como modelo –, o desenvolvimento semântico de um único
nome. O nome Deus repete-se e se transforma em literatura, e a literatura é,
quanto a esse nome, a historicidade da palavra. O nome sucede-se no tempo, ou o
tempo é a sucessão desse nome no pensamento. No livro de Êxodo, cap. 3, 14,
Moisés indaga a Deus seu nome, e Ele responde: “Eu Sou O Que Sou”. Mas o nome
ainda não é o Nome, pois lhe falta uma letra que entregaria sua natureza real.
O Ser apenas disse a Moisés o que Ele é, não lhe revelou quem, e sim, o quê. Eis
outro aspecto do nome, cujo significado é desvelar a natureza do ser nomeado.
Entretanto, a narrativa bíblica nos
apresenta outro olhar, o nome não leva à compreensão da essência, porque em
qualquer substantivo falta-lhe uma letra, cuja função é trazer à luz a natureza
do ser nomeado. Deus não disse Seu Nome, apenas substantivou o que Ele em si é,
o É. Ser em si o que é, ou Ser em si o É, revela-nos sua atemporalidade. O nome
de qualquer ser é atemporal, a temporalidade surge quando o nome é envolvido
pela circunstância. Ser o ser, ser o É, não está em quando, porque o
Ser-É-em-si, é um nome a qual não há tempo. O tempo do nome é sua transformação
circunstancial segundo outra voz, aí, o Ser-é tornar-se o Ser-será, o Ser-foi,
o Ser-seria.
A palavra Ser é verbo, mas também é
substantivo, porque nomeia; e, segundo a gramática, é um substantivo abstrato
na forma infinitiva. O infinitivo aponta a atemporalidade do nome, se este nome
é conjugado pela relação voz/circunstância, torna-se sou, és, é, somos, sois,
sereis, e etc. O Nome em si é extemporâneo, mas através da relação com outro
nome (de um substantivo com outro substantivo) surge a sucessividade e o Nome
passa a sofrer a presença do tempo. Deus é enquanto Nome, contudo a repetição
do Seu Nome é a razão da sucessão. Portanto, o tempo seria a sucessão de um
mesmo Nome no pensamento. Se Deus é, Ele é hoje, ontem e amanhã; a presença do é, atesta que o tempo é uma ilusão, sua
experiência só o é real, devido à relação estabelecida com o conceito que se
repete, até por que a repetição de uma mesma ideia admite a negação da relação
anterior e o surgimento em seu lugar de uma nova. A literatura é a sucessão
desse Nome, e a sucessão do Nome é a causa da narrativa.
Conforme a Bíblia, a narrativa seria a
repetição de um mesmo nome em diferentes relações estabelecidas com ele. Chega
a um limiar em que não se sabe se o Nome transformou-se ao longo da narrativa
(história) ou se a narrativa é a transformação continua desse Nome. Quando se
lê a Bíblia está lendo-se a narração de um nome que se transforma ao longo dos
séculos. A Literatura é, portanto, a narrativa
de um Nome. Contudo Moisés não conheceu o Nome de Deus, faltava-lhe uma letra e,
devido a isso, o Nome se transformou na história, transformou-se
semanticamente. A narrativa seria a busca de encontrar a letra que falta ao
Nome. A ausência dessa letra levou a atribuição de outros nomes (qualidades)
como modo de completar o Nome. Assim, Deus passou a ser chamado de Justo,
Santo, Amoroso, Verdade, etc. Essas qualidades que em si são antropomorfismos
nascem da necessidade do homem compreender a Deus, porque d’Ele o homem só tem
conhecimento um Nome incompleto.
Moisés esperava de Deus saber seu Nome,
mas Deus não lhe disse, apenas falou-lhe o que Ele é. Quem sabe Moisés planejasse
com a descoberta do Nome dominar o deus que lhe apareceu. Mas ao ouvi-lo,
reconheceu a impossibilidade de tal façanha, porque seu conhecimento limita-se
a uma palavra, cujo sentido encontra-se na falta. Por mais que buscasse, jamais
descobriria quem é através do nome que foi lhe dado, pois ao nome faltava-lhe
uma letra. Cabe ao homem, agora, preencher o vazio deixado ao Nome com outros
nomes, cuja função principal é qualificar (acidentar) para ser racionalizável. O
Nome será interpretado pelo homem por meio da racionalização de Seu vazio. A
interpretação fundamenta-se na falta que há no Nome, porque no momento em que é
interpretado, o Nome está sujeito a abstrações, i.e., ao receber
características que não lhe pertencem para torná-lo entendível. A Literatura,
logo, é a letra que falta.
A letra que falta é a razão do Nome ser
na narrativa, e a narrativa, a sucessão desse Nome, e enquanto narrativa, o
Nome existe. Portanto, Deus existe como narrativa de si mesmo.
Jorge Luis Borges escreveu no poema Uma Bússola:
Todas
as coisas são palavras lidas
Na
língua em que Algo ou Alguém, noite e dia,
Escreve
essa infinita algaravia
Que
é a história do mundo.


