Luz. Câmera: Gravando!!
AVISO
A
propriedade intelectual é roubo
A autoria
é uma farsa
Copie e
distribua sem culpa
(Aline Rocha)
O livro de estréia de Aline Rocha
possui uma temática curiosa, constatei que são filmes em curta metragem em um
livro de poemas. São poemas narrativos, que passam a atmosfera de que a autora
saiu com uma câmera/papel filmando/rabiscando o que acontecia ao redor. Durante
todo o Gravando (Patuá, 2013) a autora brinca com
a linguagem cinematográfica. Na orelha do livro lê-se “Versão brasileira Herbert Richers” referência a uma das empresas de
dublagem no Brasil, logo a brincadeira cinematográfica começa a partir da
orelha do livro e segue por toda a obra.
A linguagem oriunda do cinema
reaparece também na substituição de Sumário ou Índice por Cast. Esse termo, cast, é empregado no cinema
para denominar o elenco de algum filme. No caso do Gravando a metáfora é empregada para fazer
alusão aos poemas, que no caso, são os atores do ‘filme’ dirigido por Aline
Rocha.
O poema que abre o livro, e também dá
título ao volume, é uma espécie de prelúdio para os próximos minutos do
filme/livro:
Gravando
porque a gente só sabe amar feito
cinema
a gente é tudo fresco
e precisa ter a maldita cena
do casal correndo na chuva do beijo
em câmera lenta
ou então a gente ama feito novela
aquele melodrama todo
a gente devia era desligar a câmera
pra se amar, apagar as luzes
devia era se amar no camarim
me espera na saída
A ação, de algo sempre acontecendo,
em movimento, nos remete mais uma vez ao título do livro: Gravando. Aline Rocha filma o
cotidiano com papel e caneta, transportando o real/irreal para as telas da
página em branco. A ação se paralisa na seção Fotografias.
Nessa seção, os poemas são curtos e assim como todos os poemas do volume,
possuem linguagem simples. Em Fotografias,
a poeta pretende capturar o não-movimento, ou seja, são ações estáticas que
complementam o todo de Gravando.
Como já comentei anteriormente, há
poemas que se apresentam como curtas cinematográficos, em outras palavras,
poemas narrativos. Um dos poemas que me fez ler com olhos de quem assisti a um
filme, foi o Visita:
Visita
Pouco se sabe do dia em que Rosinha apareceu,
mas sua pele era mais dourada. O olho
brilhava
que dava gosto. Dona Fátima já
esperava no
portão, e a menina vinha calminha,
dava pra ver
de longe. Longe, tão longe, que a
vista até
doía de tanto forçar. Depois que
Rosalinda chegou
até canção teve naquela casa, mas
pouco se sabe.
O que se sabe bem é que no final da
tarde, depois
do almoço, e depois do café, e depois
do doce de
amora no pote, a Rosa deu um abraço
esquisito de
forte naquela velha solitária,
segurou bem a
cabeça dela e disse aquela frase que
faz sentido.
E aí Dona Fátima estremeceu, e os
meninos da
bicicleta pararam; o fusca que
cruzava a esquina
parou; a Solange que varria a calçada
parou;
e até a flor que caía do ipê também
parou se
bem me lembro, e até eu que não fazia
nada parei
quando a velha falou de um jeito meio
calado
meio cantando, meio dizendo sem
querer dizer,
mas na verdade dizendo porque tinha
que ser dito.
Tudo parou quando Dona Fátima viu a
menina
indo embora de novo e disse: Apareça
mais.
O último poema do livro, Carta para Alcides, aparece
lembrando um epílogo, desses que aparecem nos minutos finais, após os nomes dos
bastidores de um filme. No trecho em que Aline diz que “os momentos decisivos precisam ser
captados com astúcia e perspicácia, pois duram poucos segundos, talvez
milésimos, talvez nada, talvez ar, poeira”. E são esses momentos, imperceptíveis
talvez, que a autora registra no Gravando.
Será que teremos mais uma produção da cineasta/poeta? Esperamos que sim.
Aguardemos a próxima sessão.

