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12 de junho de 2014
Seduzido pelo título

Seduzido pelo título



Você julga um livro pela capa?

Provavelmente sim, mas vai dizer que não, porque a pergunta acima também pode ser lida como metáfora, e em tempos em que o limiar entre o aceitável e o condenável são muito tênues não convém dizer que as aparências são um fator determinante pra você fazer isso ou aquilo – e o adjetivo mais bonito que você corre o risco de ser chamado(a) é de fútil.

Mas há um fator que tem o hábito de me atrair para um livro, e que até hoje nunca me trouxe arrependimentos: o título.

Se você é daqueles que entram numa livraria como quem vai comprar a lista de material escolar dos filhos, então você seguramente não entenderá nada com nada do que eu quero dizer. Mas se, ao contrário, você é daqueles que vai a uma livraria como quem vai a um lugar onde sabe que vai rever velhos amigos e onde existe a real possibilidade de fazer novos, uma espécie de nirvana na terra, então o caminho é por aqui:

Existem títulos os mais variados e para todos os gostos. Há aqueles que causam [uma certa] indiferença, como, por exemplo, aqueles que têm um artigo e uma palavra só. Por que um título como A Cabana chamaria a atenção de qualquer ser vivente, não fosse a (má) fama que ele teve? Outros, já dizem a que vêm, como os títulos voltados para jovens, excluindo leitores fora desse nicho. E, dependendo do leitor, alguns podem causar repulsa, despertar o afeto, cantar, desde a capa, alguma beleza. E há aqueles que arrebatam, simplesmente. Sem maiores explicações.

O último que me seduziu como uma sereia foi o título de um livro francês, em sua edição em espanhol: La gente feliz lee y toma café (As pessoas felizes leem e tomam café), de Agnes Martin-Lugand. De quem, aliás, eu nunca tinha tido a mais singela notícia. Mas como não querer ler imediatamente um livro com um título desses? Comprei sem nem saber do que se tratava, e só quando o exemplar chegou foi que eu fiquei sabendo que se trata de uma história meio estilo David Foenkinos (outro francês que une humor e tragédia numa obra só e que recentemente teve um romance seu, A Delicadeza, transformada num filme com Audrey Tautou) e que o romance começa com uma epígrafe do texto Luto e melancolia, do Freud.  Huuuum... instigante.

Antes disso, ano passado, a espanhola Rosa Montero tinha me fisgado com o seu La ridícula idea de no volver a verte (A ridícula ideia de não voltar a te ver), que é um título a um só tempo longo, belo e intrigante. E poucos meses depois, comprei também El frio modifica la trayectoria de los peces (O frio modifica a trajetória dos peixes). Sabe-se lá por que, mas achei esse título lindo, e este foi outro que comprei pela internet sem fazer ideia do que se tratava.

Mas o título de uma obra não nos chama a atenção apenas por aquilo que consideramos belo esteticamente na junção de uma palavra com a outra. Os três títulos mencionados acima, provavelmente, tornaram-se mais bonitos porque esbarraram pelos meus olhos em espanhol (que, apesar disso, é uma língua pela qual não tenho lá muito apreço). Assim é que, algumas vezes, um título também pode chamar a atenção pela sua musicalidade, pelo seu senso poético. Dentro de ti ver o mar, da portuguesa Inês Pedrosa, é um exemplo disso. O título parece letra de fado – e é mesmo.

Um que me chamou a atenção porque me pareceu meio paradoxal (inicialmente), foi A Elegância do Ouriço, da francesa Muriel Barbery. De onde ela tirou que um ouriço tem elegância? Aí você acha aquela arrumação entre adjetivo e substantivo sem nexo, pega o livro, começa a ler e de repente, se descobre diante de um dos melhores livros da literatura contemporânea. De qualquer país.

Quer um que chama a atenção logo de cara justamente porque faz você ficar entre uma reação de nojo e um ponto de interrogação? Secreções, Excreções e Desatinos, livro de contos do Rubem Fonseca. O que esperar de um livro de contos do Rubem Fonseca com um título desses? Escatologia? Histórias envolvendo problemas psiquiátricos? Fica a dica para os curiosos.

Claudia Tajes, escritora gaúcha que vem ganhando mais e mais os holofotes nas letras nacionais, por sua verve brilhante, seu humor cortante e crítica nem sempre tão velada sobre determinadas características do povo brasileiro, tem dois títulos que eu adoro: A vida sexual da mulher feia e Por isso eu sou vingativa. O primeiro é aquele tipo de livro que te faz pensar: isso é autoajuda? Não, não. Peraí. Qual a mulher feia que iria comprar o livro, sendo aparentemente sacaneada logo de cara? Então não, descartada a hipótese. É um livro de piadas? Também não, mas muito bem humorado, e extremamente contemporâneo. O outro, que só pelo título já diz a que veio, intriga logo de cara, também. Por que será que ela é vingativa?, pode se perguntar o leitor. E só lendo, mesmo. Ou vendo a série da TV. Mas nada como ler o livro, claro. De qualquer forma, o que importa: ambos os títulos são uns achados.

Tem também aquele tipo de título que você lê, não entende nada, lê de novo, aí é que não entende nada mesmo. Lê a orelha do livro, a última capa, e o título continua a fazer sentido ZERO, mas mesmo assim você vai lá e compra o livro porque, afinal, se o título não faz sentido, alguma coisa ali dentro deve fazer, para aquele livro ter saído com mais de trezentas páginas! É ou não é? Exemplos. Pois bem: Coisas do diabo contra, de Eromar Bomfim. Não tem uma continuação depois do “contra”. Não é algo como Coisas do diabo contra o grilo andaluz, o que continuaria não fazendo sentido, mas pelo menos seriam coisas do diabo contra alguém (ou algo). Mas não. E mesmo assim, ali está o livro, na minha prateleira. Mas nada supera um livro que andou circulando bastante nas resenhas mais... “alternativas”, digamos (ou nem tanto): As visitas que hoje estamos, de um escritor que fez questão de assinar o livro com seu nome completo, faltou só RG e CPF: Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira. Não faço ideia de sobre o que seja o livro (e parece que quem leu também não, o que contradiz minha teoria de que, se o título não faz sentido, o miolo deve fazer. Quem sabe, nesse caso, não foi a orelha que fez?). De toda forma, como não querer ler uma obra cujo título te faz se sentir um leitor de Paulo Coelho, sem a menor capacidade de abstrair, entender o que está nas entrelinhas, compreender o que não foi dito? Claro que a gente vai lá e compra. Não lê, mas compra.

Outros livros nos pegam pela poesia que carregam em seus títulos. Sente só que coisa linda: Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Não dá vontade de correr e abraçar a Stela do Patrocínio, que é a autora? Mas nem adianta querer, porque ninguém abraça defunto (pelo menos que eu saiba, aqui por essas bandas). Stela era uma escritora confinada a um hospício, e teve seus poemas gravados em fita e depois transcritos, já que ela mesma nunca escreveu uma só linha. Mas só pelo título, você quer logo a obra. Foi assim comigo.

Nessa mesma linha, tem um de um escritor que eu adorava na adolescência, o Dean Koontz. O livro? Os caminhos escuros do coração, olhaí, que coisa bela. E é mais poético ainda no original: Dark rivers of the heart. Lá não são “caminhos”, são rios. Quebra qualquer insensibilidade e faz o leitor querer se jogar na leitura.

Outros fazem o leitor querer ler por possuírem títulos que, além de intrigantes, parecem questionar alguma coisa: Como vivem os mortos, de Will Self; A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan; Teoria geral do esquecimento, do Eduardo Agualusa e A insustentável leveza do ser. É de se pensar, de cara, que não são leituras tão “simples” assim. Mas que, ao final da leitura, algo te foi acrescentado.

Seja lá o que nos leve a colocar as duas mãos numa obra e querermos adquiri-la, ou pegá-la emprestado, o que importa é continuarmos lendo, fazendo parte do elo transformador da leitura.

De todo modo, dentre tantos milhares de livros publicados por ano, é sabido que, hoje em dia, o apelo comercial de um livro tem de estar cada vez maior. Se o título ajudar a ser um chamariz nesse processo, tanto melhor.

E vamos combinar que, assim como em pessoas, um título que nos diz algo interessante é muito mais sedutor do que uma capa que só revela, unicamente, ela mesma, ou seja: a aparência. E de aparência por aparência, os photoshops, as revistas direcionadas a determinados públicos, a vida, já estão cheios.




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