Adriano, microconto de Alex Costa
Adriano era um menininho de cabelo carapinho, que era meu vizinho,
e que vivia com o nariz-torneira a escorrer catarro amarelado. Sempre com o pé
no chão, só depois me contaram porque a barriguinha de Adriano era tão para
frente: mamãe disse que era cheinha de vermes. Adriano tinha um cheiro de sol e
suor que eu gostava demais, e Adriano era meu melhor amigo. Sempre quando
brincávamos do jogo das tampinhas, e eu estava ganhando, ele dava um murro bem
forte nas minhas costas e corria para a casa dele, que era uma casinha tipo de
barro, caindo os pedaços. E eu ia chorando para casa e minha mamãe dizia: “você
não vai mais brincar com aquele moleque imundo!” – mas era mesmo que nada. No
outro dia, eu mal tirava os sapatos e a farda do colégio e já saía correndo, com
meu boneco de menino branco nas mãos, para chamar Adriano para brincar de
correr no meio da rua. Ele brincava com meu boneco que girava a cabeça e eu era
todo encanto com o robô dele, que era feito de caixa de leite vazia. Mas aí, um
dia, que era de tarde, chegou um carro preto no final da rua e jogou o Adriano
dentro, feito um porco, e ninguém nunca mais viu o Adriano. E o pai e a mãe
dele choraram muito, mas Adriano nunca mais voltou pra casa. Minha mamãe disse
que teria que arranjar outro amiguinho para brincar, que eu poderia escolher,
mas nenhum deles tem o cheiro de sol e suor que só Adriano tinha.

