Vivendo ancorado na vida submarina
Às vezes, e muito dificilmente isso ocorre,
encontro um livro que tenho a vontade de deixar a leitura esperando. Explico.
Quando inicio um primeiro parágrafo ou um primeiro verso de um livro, e sinto
que ele me trouxe algo significativo, desde aquele instante me ponho em pé de
guerra e percebo que nem tão cedo irei querer findar o livro.
Felizmente, pela quarta vez este ano, fui premiado
com mais um desses livros que nos impedem a leitura ao mesmo tempo em que nos
levam adiante, como se estivéssemos sobre um barco de papel, que boia, para
trás e para frente, vagarosamente, sobre todo o oceano. E quando isso ocorre
com um livro de poemas é porque as imagens ali inventadas nos fizeram esquecer
todo o resto e nos importamos apenas com as palavras que acabam por criar novas
imagens.
Foi lendo os poemas da mineira Ana Martins Marques
que me vi preso, pela primeira vez, ao que poderia ser um’A vida submarina.
Ao ler o primeiro poema, Âncora, já finquei, definitivamente, os
pensamentos em seu livro:
O
sol percorre
toda
a extensão de um muro
Riscos
na paisagem
Escrita
a lápis
A
rua começa desde a escrita –
Esta
em que te sigo
Este
poema é uma âncora;
é
para que você fique sempre aqui
Mas
fogem as horas sem carícias
horas
que são como um tanque de peixes sem peixes
A
minha mão cobre a sua
com
sua sombra
Este
poema, pesado, afunda (Âncora, p.13)
Publicado em 2009, o livro de Ana, é dos livros que
não se pode ter em casa. Deve-se, ao terminá-lo, encontrar um amigo e passá-lo
adiante. Poesia assim, que envolve o ser e o faz devanear, não pode ficar
parada na estante de uma biblioteca particular.
N’A vida submarina, podemos encontrar o que
chamo de ‘livros’. Cada qual com suas características, mas que não deixam de se
relacionar uns com os outros. Parece que tudo foi feito de uma maneira para que
se criasse uma ‘teia submersa’ e fosse possível compreender a solidão desse
eu-lírico, que se perde no ato da escritura. Esses livros que compõem um só são Barcos
de papel; Arquitetura de interiores; A outra noite; Diário
(verão 2007); Episteme & epiderme; Exercícios para
a noite o dia; Caderno de caligrafia e A vida
submarina.
Ana Martins Marques, que já foi vencedora de
prêmios literários, possui o entendimento da linguagem coloquial, aproximando
assim até mesmo o leitor que não tem certo apreço pela poesia. Cria, a partir
daí, um eu-lírico que aparenta ser vários, mas que entendo ser apenas um; e que
vai estar refletido nas várias ‘estórias’ que vão se formando ao longo dos
poemas, fazendo-nos sorrir, como se estivéssemos, de certa forma, voltado à
infância. Tal delicadeza encontrada em certos poemas chega a se transformar em
uma profundidade reflexiva, como se vê na composição de Aquário que
traz um olhar aguçado de criança em perceber a tristeza dos peixes presos em um
aquário, e que ao mesmo tempo traz algo do eu-lírico na representação do peixe:
Os
peixes são tristes no aquário
mesmo
que não conheçam o mar
alguma
coisa neles quer o amplo
No
poema
morrem
sem água
na
primeira estrofe (Aquário, p19)
É certo que, em algum momento, o leitor discordará
do que digo e dirá que já pensou nos animas que vivem enjaulados ou
engaiolados, e que já puderam perceber a melancolia e a tristeza que esses
mostram. Mas, ao meu entender, Ana Martins vai além por criar um eu-lírico que
se põe no lugar do peixe e tenta mostrar ao indivíduo que o observa o quanto a realidade
é transparente, cheia de mazelas e infortúnios, mas que muitas vezes não vemos
ou fingimos não ver. Essa transparência é a própria realidade que vivemos e que
cremos ser a melhor possível. Na verdade, estamos mortos, sobrevivendo sem
prazer algum, morremos “na primeira estrofe”, no primeiro suspiro.
Há, por todo o livro, como não poderia deixar de
ser quando nos deparamos com as profundezas de um oceano, uma presença do
refletir poético, de como a poesia pode estar presente em nosso mundo e como ela
pode mexer conosco. Como se pode perceber no poema Margem:
No
final da página
como
no final do mundo antigo
há
um despenhadeiro
Embora
os que leem prosa em geral
se
arrisquem mais
porque
chegam quase à beira do abismo
cuidado
ao chegar à borda do poema. (Margem, p.15)
Chegar à borda do poema é perigoso, pois o
indivíduo, acostumado com sua realidade, pode se deixar levar pelo mundo
imagético da poesia, e isso, para alguns, que fingem viver uma realidade
prazerosa (que não percebem a falta de transparência do aquário em que vivem),
é como se realmente perdessem o chão, como se caíssem num “buraco sem fim”,
como Alice um dia chegou a cair, imaginando um novo mundo, uma nova realidade
para si.
A partir de A outra noite, o elemento
amoroso dá o seu ar da graça e percorre a poesia de Ana Martins Marques como
uma Batata quente, aqui e ali irá aparecer de forma a mostrar que
sem isso o sujeito se perde nesse mundo (mal) idealizado.
Se
eu te entregasse agora o meu amor
aceso
como ele está,
como
ele está, pesado, você o trocaria rapidamente de mão,
você
o guardaria um pouco na esquerda,
um
pouco na direita,
por
quanto tempo antes de o passar adiante?
(Batata
quente, p.43)
Há,
porém, momentos em que esse amor nada mais é do que Migalhas,
Entre
a toalha branca e um bule de café
seria
inapropriado dizer
que
eu não te amo mais.
Era
necessário algo mais solene,
Um
jardim japonês
Para
as perdas pensadas,
Um
noturno de tempestade
Para
arrebentar de dor,
Uma
praia de pedras para chorar
em
silêncio, uma cama alta
para
o incenso da despedida,
uma
janela
dando
para o abismo.
No
entanto você abaixa os olhos
e
recolhe lentamente as migalhas de pão
sobre
a mesa posta para dois. (p.102)
E assim, vamos percebendo que vasculhar os poemas
de Ana nada mais é do que um Rito para nos
encontrarmos. Procuramos nos poemas nossas histórias não vividas, o que
não nos pertence, para tentar encontrar uma possível salvação desse mundo que
nos prende. Dessa maneira o eu-lírico, que vagueia na poesia, e se perde, acaba
se percebendo no peixe, preso numa realidade que o faz sofrer.
Como
se a conhecesse de cor
repito
com as mãos a curva das tuas costas
(teu
corpo te veste lindamente)
Vasculho
teu corpo até encontrar
algo
que do meu corpo
eu
não sei
Ignoramos
porém
o
nome das coisas que trocamos (Rito,p.53)
E de certa maneira ninguém pode “testemunhar” essa
troca, que se dá a partir de nossa leitura. Essa leitura que adentra os nossos
sentimentos e que podemos sentir em toda nossa Episteme & epiderme.
Nesse ‘livro’, a noite aparece e mostra que a Insônia se
faz presente nas noites de escrita, rodeadas de ninguém: “Regressas para a
espera e para a escrita | como em todas as noites sem ninguém” (Insônia, p.78).
Mas são nesses momentos tristes do ofício da escritura que os Relâmpagos surgem,
tramando o caminho certo que faz a poeta atingir “muitas coisas rápidas,
precisas, | por alguns instantes” (Relâmpagos, p.102).
E, talvez, tenha sido nesses instantes que o
eu-lírico se viu lembrando os poemas clássicos de Homero, uma vez que a
presença de Penélope surge para nos contar que os dias são sempre melhores que
as noites, em apenas dois curtos versos.
De
dia dedais.
Na
noite ninguém. (Penélope III)
E assim, feito um O lutador, o leitor
vai chegando ao final do livro, sentindo o que as noites de insônia trouxeram
ao eu-lírico, enquanto tentava escrever:
Atingidas
em combate
as
palavras oferecem
sua
outra face.
São
poucas,
eu
muitos.
Da
luta vã
resta
a manhã. (O lutador, p.119)
E tudo isso tem que acabar por desaguar entre
corais, pois já não há mais lugar para o que o eu-lírico sente na pele, essa
dor da escrita. Acaba por achar que tem que se ver refletido como o peixe,
atordoado, perdido, sem liberdade no aquário. Resolve, então, viver uma vida
marinha, “inventando amor, de amplas janelas, sobre o mar sem praias” (Marinha,
p.130). Daí, o silêncio que existia será levado junto para a vida que escolheu, A
vida submarina. Calar-se-á diante de seu próprio alheamento e na recusa de viver
como se pudesse sentir prazer nos afazeres do dia a dia. E tudo isso, talvez,
por haver a falta do sono, a falta da confluência com as palavras, em perceber
que a sua liberdade só pode ser adquirida quando estiver não mais habituada aos
abismos da poesia e da realidade. Isolar-se-á feito os corais, porém será
permeado pelos poemas-peixes que deixou para trás.
Eu
precisava te dizer.
Tenho
quase trinta anos
e
uma vida marítima, que não vês,
que
não se pode contar.
Começa
assim: foi engendrada na espuma,
como
uma Vênus ainda sem beleza,
sobre
a apele nasciam os corais,
pele
de baleia, calcária e dura.
Ou
assim: a luz marítima trabalha lentamente,
os
peixes começam a consumir por dentro
o
sal do desejo,
estão
habituados ao sal.
Quando
vês, a água inundou os pulmões,
neles
crescem algas íntimas,
os
olhos volta-se para dentro,
para
o sono infinito do mar.
As
mãos se movem num ritmo submerso,
os
pensamentos guiam-se pela noite
do
Oceano, um anoite maior que a noite.
Tenho
quase trinta anos e uma vida antiga
anterior
a mim.
Daí
meu silêncio, daí meu alheamento,
daí
minha recusa da promessa desse dia que você me oferece,
esse
dia que é como uma cama
que
se oferece ao peixe
(você
não haveria de querer
um
peixe em sua cama).
Quem
atribuiria ao mar
a
culpa pela solidão dos corais
pelas
vidas imperfeitas
dos peixes habituados ao abismo,
monstros quietos
só de sal e silêncio e sono?
Eu precisava te dizer,
enquanto as palavras ainda resistem,
antes de se tornarem moluscos
nas espinhas da noite,
antes de se perderem de vez
no esplendor da vida
submarina. (A vida submarina, p.136)



