A SIMPLICIDADE COMO ARTIGO DE LUXO
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| by qin tianzhu |
Lembro
como se fosse hoje: época de férias era sinal de ir para a casa dos meus avós
paternos, em uma cidade no interior onde eu e meus primos levávamos o tempo a
andar de bicicleta por estreitas estradas de areia, através da qual chegávamos
a um açude de águas refrescantes, onde podíamos ficar até tarde apenas
existindo na poesia do bem-viver.
Era
também quando vivíamos a caminhar com minha avó pra todos os lados da cidade –
e eu sempre tive certeza de que se ela tivesse inclinações políticas, ganharia
com certeza, tal era a sua popularidade por onde passávamos. De volta a casa,
as portas estavam sempre abertas, a ponto de me irritar, já que eu sempre
gostei de privacidade e o entra-e-sai de conhecidos por lá não dava espaço pra
descanso porque, além de tudo, eu era a atração da casa naqueles dias, atenção
que eu sequer podia compartilhar com meus primos, que ficavam na casa dos
outros avós.
Nessa
movimentação quase ininterrupta (a casa ficava em silêncio apenas ao cair da
noite), eu observei algo que me fascinava: as pessoas vinham, deixavam coisas e
partiam, ou pediam coisas e levavam. O que acontecia ali era um escambo
saudável entre vizinhos, que eles carinhosamente chamavam de “compadres” e
“comadres”. Em dias mais amenos, outros vinham jogar cartas até altas
horas, até que chegava o momento de despedir-se, armar a rede, colocar o penico
ao lado, mas não tão perto dos pés por riscos óbvios, rezar e dormir. E no dia
seguinte, tudo outra vez. E era de uma felicidade que só parecia finita quando
alguém lembrava que as férias estavam perto do fim. Eu queria aquela realidade
por perto sempre, queria conhecer pessoas, entendê-las, comer daquelas iguarias
que eu só tinha naquela cidade.
Olho
para o retrovisor da minha própria história e vejo aqueles móveis de um marrom
escuro, pesados, que precisavam de muitas pessoas para arrastar de um lugar a
outro, aquelas portas antigas, o teto dando vistas às telhas. E novamente o
estranho hábito lindo, ainda que estranho apenas para mim, de chegarem na casa
da minha avó e deixar um saco de feijão, alguns litros de leite numa embalagem
que não me parecia tão limpa, milho, água. E minha avó cedendo coisas a essas
pessoas, numa via de mão dupla tocante. E era dessa simplicidade que se fazia a
vida por aquelas paragens.
Com
o passar do tempo, as mudanças aparentemente inexoráveis.
Minha
mãe vinha almoçar em casa às pressas, engolia o que havia no prato e levava a
mim e minha irmã para a escola, num tempo em que ainda se podia percorrer
vários quilômetros em vinte minutos nas cidades brasileiras. Porque a verdade é
que ela não tinha muito mais do que isso.
Entretanto,
mesmo aí, quando eu sempre estava entre mais de um lugar, conseguia ter a
sensação de que essa correria não me atingia diretamente. E talvez não me
atingisse, mesmo. Com uma mãe que fazia de tudo para evitar que víssemos
sofrimento ou dor, e as noites passadas brincando na rua com os vizinhos,
parecia que a realidade piorara um tantinho, mas a sensação de estar crescendo
e adquirindo outras responsabilidades compensavam esse buraco causado pelo ato
de existir e ter de ir vivendo.
A
coisa chegou a tal ponto que, recentemente, um famoso plano de saúde,
observando essas fatídicas mudanças, lançou uma campanha cujo slogan (“Esse é o
plano”), num interessante jogo de palavras entre a palavra plano significando
“projeto” e “plano de saúde”, se propõe a listar coisas que seriam bons planos
para a vida de alguém. Coisas como “envelhecer com a certeza de nunca ficar
velho”, “cuidar hoje do amanhã” – e a mesma voz que diz isso faz uma pausa pra
dizer o slogan.
Minha
estupefação veio quando um dos “planos” mencionados foi “conseguir almoçar em
casa”.
Hoje
em dia, quando outros mais de vinte anos se passaram desde a correria da minha
mãe para me levar e buscar, fica a certeza dolorosa de que precisamos valorizar
novamente hábitos perdidos. Ir a um restaurante, sentar, pegar o cardápio,
escolher, fazer o pedido, esperar o tempo de preparo, comer, para só então
pagar a conta, levantar e ir. Parece um ritual, não é? E é mesmo. Não duvido
nada que as gerações mais recentes talvez achem que isso é quase tribal.
Avançamos nos anos, mas regredimos cada dia mais como povo, como civilização,
como sociedade. Como podemos? Em que momento foi que sucumbimos ao consumismo
desenfreado e começamos a chamar dinheiro de “deus”? Quando a ideia de fazer
tudo no menor tempo possível para que supostamente tenhamos tempo para fazermos
outras tornou-se o objetivo de vida da maioria de nós?
São
perguntas que exigem muita reflexão e um estudo complexo dos movimentos que
criaram a sociedade e a geraram – e a geriram – tal como ela é hoje.
Se
precisamos “fazer um plano” para conseguirmos almoçar em casa, é sinal de que
há algo muito, muito errado. Não se concebe que com todos os avanços, com tudo
o que temos para ter uma sociedade menos injusta e tecnologias que facilitam
nossa vida, conseguir, no intervalo do primeiro para o segundo turno de
trabalho, fazer uma refeição em casa e ter de considerar isso um privilégio. Ou
talvez se conceba, sim, afinal, chegamos onde estamos justamente por conta
dessa histeria coletiva que a vida se tornou. Esse frenesi pelo sempre ter
mais, e quem quer se ver fora disso é julgado pelos que estão à sua volta.
Foi-se
para sempre o tempo que tínhamos para sentar na calçada, cozinhar sem pressa,
ler um bom livro sem a correria de terminá-lo para começarmos o seguinte,
viajar sem lembrarmos de tudo que temos pra resolver quando voltarmos,
conversar amenidades com os amigos, amar vagarosamente, admirar a beleza dos
animais, assobiar uma canção ou cantar no chuveiro, sentar à uma mesa de bar e
conversar amenidades com colegas e amigos sem sequer lembrar do dia seguinte,
observamos o crescimento de um filho, de um animal ou de um relacionamento, e
ver o que existe a partir dali?
Aparentemente,
sim. No molde como a vida em sociedade hoje está configurada, a
impressão-quase-certeza é essa. Esquecemos que aquilo a que chamamos “Deus”
está nos detalhes, nas pequenas coisas, e a nossa megalomania continua a nos
levar aos abismos da inconsequência.
A
vida não requer de nós apenas coragem; o que a vida quer mesmo, e precisa, é de
nossos pequenos atos revolucionários no dia a dia. Não existe realidade
transformada passivamente, e se não estamos satisfeitos com o que nos rodeia,
precisamos ser, como diz o pensador, exatamente aquela mudança que queremos ver
no mundo.
A
simplicidade tem que permanecer como algo simples, que delineia e substancia a
nossa necessidade de desenvolvermos a nossa própria sensibilidade, força vital
para termos os olhos para enxergar além do que está posto diante de nós, e nunca,
de forma alguma, a expressão de um sentimento calado, obtuso, que virou artigo
de luxo porque não sabemos ou não podemos mais voltar a como era antes.
Enquanto
o nosso olhar para o mundo for permeado pelo interesse em acumularmos coisas,
estamos fadados ao destino mais cruel, ao câncer mais nefasto e renitente a se
espalhar por cada lugar do nosso corpo, a caminho do não-existir. Afinal,
parece-me que no fundo a sanha destruidora do homem tende a ser um desejo da
extinção dele mesmo.

