A fuga
por Lucas Vinícius da Rosa
Mesmo que as janelas
estivessem abertas, as portas com suas fechaduras não emperradas, e os portões
com cadeados cujas chaves estivessem dispostas num molho pendurado à parede,
ainda assim V. não conseguia fugir.
Um vento sombrio
batia contra a janela, ao amanhecer. Trazia consigo os primeiros raios de um
Sol indiferente à presença dos astros que a ele circulavam. Expurgava de V. um
radiante sorriso, contudo. Isso porque, talvez naquele dia, em especial,
pudesse ele, quiçá, ser sábio o suficiente para enganar-se com desenvoltura
melhorada; e construir plano deverás bem elaborado para arregaçar as amarras
que ele próprio lhe impusera às mãos cansadas, e os grilhões que tanto lhe
faziam caminhar pesadamente, como a horda dos outros seres que diziam perseguir
a felicidade; os mesmos ilustres cidadãos que, nas farmácias, formavam numerosa
fila, sedentos por mais uma cartela de analgésicos que lhes dopasse os
sentidos.
A cidade calmamente
acordava, nas ruas que cercavam as prisões espontâneas – ou, em palavras mais
verídicas, meras propriedades financiadas pela cultura da ilusão da conquista,
para que fossem herdadas por nomes borrados em escrituras de tabelionato. A
cidade, em si, em grande verdade, toda ela, parecia-se como um manicômio
obscuro de portas abertas, tal qual a casa em que tanto V. como os outros
habitantes se achavam. Isso significava, de modo profundamente intrigante, que
não se tinha para onde fugir; sequer para a direita; ou para a esquerda.
Quem sabe retroceder
o ponteiro da vida, tal qual num sonho como aqueles sonhados em cenas
cinematográficas, a lotarem cinemas com telespectadores ávidos por máquinas do
tempo que lhes faça esquecer que envelhecem mais do que gostariam; ou, uma vez
descidos todos os grãos de areia para a cavidade inferior, inverter a
ampulheta, e fingir que o tempo conta-se de forma jovial e inversa.
Os sons que V. ouvia
eram cândidos, apenas se silenciosos ou perpetuados pela natureza. Os cânticos
dos pássaros, no entanto, mesmo estes belos animais silvestres, eram
aprisionados como fora seu coração trancafiado pelas normas dos sentimentos
civilizados. "Como posso fugir destas gaiolas, nas quais colocaram-me
desde muito pequeno, ensinando-me como, quando e o que amar e repudiar?",
pensava insistentemente. O homem travava de classificar como selvagem aquilo
que não podia colocar em grades. E o que em grades não estivesse, domesticado
era definido. Mas, V. não se sentia domesticado; ou selvagem; V. era apenas
humano. "Por que ser humanos precisariam empregar fuga de outros
companheiros de espécie?", V. matutava, enquanto assistia ao vento levar,
para longe, algumas folhas de um árvore, sem que o vegetal por isso se
queixasse da fuga de um de seus membros; "a morte, para a natureza",
continuou, "é muito mais aceitável do que para nós".
V. via na sociedade
tantas contrariedades quanto em si, porém todas elas distintas das suas. Havia
originalidade maltratante em todos os ambientes, em todos os amores e em todas
as tragédias; Shakespeare, Goethe e Ésquilo assinalaram apenas pequena porção
delas. "Talvez por isso eu não consiga fugir, mesmo tendo acesso ao molho
universal de chaves; talvez por isso...", V. hesitava. E assim a manhã
transcorria com o acordar dos vivos que cumpriam suas rotinas, prestes a
desenrolar mais um segundo, em sequência a completar outras horas, e dias e
vidas e padecimentos.
A parca Nona havia
dado-lhe nove meses lunares, mesmo que sem sua conivência; a Décima cortado-lhe
o fio, com uma tesoura afiadíssima. O que não compreendia, no entanto, era como
o ato de fugir das casas que habitava (não se sentindo verdadeiramente em seu
lar em nenhuma delas, tanto quanto o fossem aconchegantes à sua alma suas
paredes e delimitações) poderia lhe fazer escapar da Morta, a fates inevitável.

