Os bárbaros estão à espreita
por Madjer de Souza Pontes
Os desmandos do Poder
em nome da Ordem. A Ordem estabelecida através dos regimentos do Poder abusivo.
O Poder e a Ordem, sintagma nomeador de alguns processos dominadores, como o
controle das massas, o domínio de indivíduos, o império sobre determinados
povos.
A leitura de À Espera dos Bárbaros, do sul-africano J. M.
Coetzee, nos provoca uma sensação de mal-estar da impotência. A injustiça paira
sobre os indivíduos dominados, pois a Justiça apenas é apreendida pela
comprovação experimentada da Injustiça. O romancista, com sua prosa econômica,
porém complexa, constrói quase uma alegoria para fundamentar sua concepção
acerca da violência provocada pelo Poder que busca, acima de tudo, estabelecer
a Ordem; desenvolve em seu texto que não há como expressar qualquer forma de
revolta diante da tortura, apenas uma revolta silenciosa.
À Espera dos Bárbaros é uma
daquelas obras que nos perturbam pelo oblíquo jogo entre beleza e brutalidade.
As descrições sem máscaras exibem a miséria humana no que ela tem de mais
pungente e cruel. As implicações da dominação através de um Poder desmedido,
dos usos e abusos pessoais e políticos (de alguns personagens representantes do
“Império”) e da tirania étnica, que visa à higienização em nome da Ordem, não
se instituem apenas na realidade objetiva da obra, mas incidem em nossa
interioridade, justamente no ponto em que os problemas de comunicação entre
indivíduos e estado se fundamentam, ou seja, a realidade da tortura, não só
física, conquanto ideológica, da brutalidade e da injustiça de regimes
autoritários ou pseudodemocráticos que usurpam a voz dos indivíduos e os oprimem
em nome do Progresso e da Ordem.
Coetzee não tem como finalidade focalizar, com tons realistas, as
problemáticas surgidas da instituição do ‘apartheid’, até mesmo por que o
romancista constrói quase uma alegoria que representa um “Império” que intenta
controlar e punir os “Bárbaros”, pois é assim que os conhecemos. Não nos é informado
qual sua etnia, em que ponto geográfico do mundo a estória se passa, no entanto
são “Bárbaros”, a única certeza que temos. Contudo, apesar desta designação,
Coetzee procura humanizá-los, preenchê-los de substância e, posto que evitam o
avanço da civilização, ao defenderem suas terras, o “Império” utiliza de seu
Poder desmedidamente para, ao longo da narrativa, transformarem-se no que mais
rejeitavam, semelhante a antiga máxima, de acordo com as palavras de
Horácio:
“A Grécia conquistada conquistou por sua vez seu selvagem vencedor
e trouxe a civilização ao rude Lácio”.
É na longínqua fronteira de um “Império”, não nomeado, que cumpre a um
Magistrado os deveres que lhe cabem por desígnios superiores.
"Magistrado" é só assim que também o conhecemos. Apenas o que importa
é sua função, mas suas ações e sentimentos destoam e sua posição na hierarquia
da barbárie o envolve na Roda Viva do Poder e da Ordem: um membro do “Império”
sendo higienizado.
Eu não queria me envolver nisso. Sou apenas um magistrado da roça, um funcionário responsável a serviço do Império, servindo meus dias nesta fronteira preguiçosa, esperando para me aposentar. Recolho o dízimo, os impostos, administro as terras comunais, cuido de que não falte nada para a guarnição, supervisiono os funcionários que temos aqui, fico de olho no comércio, presido o tribunal duas vezes por semana. De resto, vejo o sol nascer e se pôr, como e durmo e estou contente. Quando morrer, espero merecer três linhas em letra miúda na gazeta imperial. Não pedi nada mais que uma vida tranquila em tempos tranquilos.
Mas no ano passado começaram a
nos chegar da capital histórias de inquietação entre os bárbaros...
É a partir dessa inquietação que logo no início do
romance entramos em contato com a desumanização pela guerra e pelo ódio étnico.
E logo quando o Magistrado, com uma mistura de lavagem cerebral e ingenuidade,
crê que os “Bárbaros” feitos reféns, ainda sob sua supervisão, estão sendo
torturados, pois não colaboraram oferecendo informações favoráveis a seus
"interrogadores". O Magistrado tem aversão aos métodos usados pelas
“autoridades” e, quando sua atitude em relação a estes e às políticas do
“Império”, ao qual consagrou grande parte de sua vida, se modificam, já é tarde
demais. Ele já não passa de um farrapo humano, evitado e ridicularizado pelos
que o cercam.
Um pouco mais sobre o autor:
Coetzee nasceu na Cidade do Cabo em 1940. Trabalhou
como programador de computadores na Inglaterra, entre 1962 e 1965, enquanto
fazia pesquisas para sua tese sobre o novelista inglês Ford Madox Ford. Em
1965, mudou-se para os Estados Unidos, onde estudou em inglês, linguística e
línguas e dialetos alemães na Universidade do Texas.
Entre os livros escritos pelo sul-africano estão
"Dusklands", de 1974, "No Coração do País", de 1977, com o
qual ganhou o principal prêmio literário de seu país, o CNA Prize. Em 1983,
publicou "Life & Times of Michael K" e em 1999,
"Disgrace".

