
Sagarana
João Guimarães Rosa, tido como um dos maiores escritores brasileiros por sua revolução na maneira de escrever, já era premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1936, dez anos antes de sua primeira publicação, por ter participado num concurso pela mesma academia com uma coletânea de poemas intitulada Magma.
Mineiro da gema, Guimarães Rosa aparece em 1946 para conhecimento do público com seu primeiro livro intitulado Sagarana. São nove as peças que compõem o livro. Peças estas que são tidas não como contos, mas em sua maioria como novelas, gênero peculiar de Guimarães Rosa.
Em Sagarana iremos encontrar o regionalismo como tema preponderante, o material folclórico, a magia que cercava aquele povo do sertão mineiro, a religiosidade, neologismos, um léxico vasto e a arte de contar estórias de um autor que nos leva a crer que ali se encontra um gênio.
João Guimarães em uma carta em resposta a João Condé fala sobre a criação de Sagarana. Conta ele que o ambiente em que se encontrariam suas estórias seria o interior de Minas Gerais, e que o livro seria composto por doze novelas. Após “sete meses de exaltação, de deslumbramento”, como diria o próprio autor, estava pronto o livro a 31 de dezembro de 1937. Destas doze novelas, Questões de família e Uma história de amor tiveram fim trágico, ambas foram destruídas. Bicho Mau ficou guardada para ser publicada em outro livro..
A linguagem de Rosa será sempre alvo de estudos. Neste seu primeiro livro, ele já começa a criar novas formas e vai mostrando no decorrer das histórias como se dava a língua falada dos capiaus. Sempre fiel à maneira de falar dos seus homens, Rosa escreve as palavras da maneira que são ditas como: papiatos, condizendo, opiniudo, esmochado, bijungidos, babujando, carapuçudo, arapuado, espandongado, rodeiras, etc., criando, portanto, uma nova maneira de escrita. Uma escrita falada.
As nove peças que encontramos em Sagarana continuam como diria João Condé, a grande tradição da arte de narrar. Ponto interessante de se observar, pois é quanto à maneira de contar as estórias que notamos como Rosa utilizava-se das palavras para nos dar a impressão que as cenas das peças é quem definiam a cadência daquelas.
Temos em Conversa de bois uma linguagem mais pesada, devagar, arrastada. O enredo gira em torno de oito bois que falam entre si, atrelados a um carro-de-bois. Sob comando de Agenor Soronho com ajuda do guia Tiãozinho, os bois levam uma carga de rapadura e sobre ela um morto, pai do pequeno guia.
Já em A volta do marido pródigo, temos uma linguagem mais solta, despojada. Até mesmo porque Lalino Salãthiel é um malandro nato, que não gosta de trabalhar e adora uma boa conversa. Sempre cheio de estórias arranca simpatia de todos, até mesmo quando deixa a mulher, praticamente vendida, para um espanhol.
Outra característica forte encontrada no livro é quanto à questão da tensão. O autor intensifica-a fazendo com que o leitor se aproxime de um desfecho trágico já previsto por este. Mas, quando já damos por encerrado a estória, predizendo que já sabemos como irá acabar, eis que algum acontecimento brusco acontece, trazendo à tona um acontecimento totalmente inesperado, consistindo numa ação que produzirá destruição ou sofrimento – algo típico da tragédia. Rosa fará isto sempre baseado na verossimilhança.
A superstição é também um dos elementos mais importantes na construção dos contos São Marcos e Corpo Fechado. Em A hora e vez de Augusto Matraga encontra-se também a questão da dualidade bem e mal, pois um homem que parecia ter o “diabo no corpo”, no final usa essa maldade gigantesca para realizar um bem maior.
Quem ouve falar de Rosa, talvez a primeira vista, fique com certo receio de lê-lo pela riqueza léxica encontrada em seus livros, dificultando o acesso à maioria dos leitores. Mas quando finalmente se toma coragem e abre-se não só Sagarana, o mundo fabuloso dos capiaus, mas toda obra de João Guimarães Rosa, toda aquela impressão some e nos incorporamos ao ambiente e aos personagens ali encontrados. Talvez na literatura brasileira não se encontre outro homem deste porte. O mundo criado por Rosa e toda sua maneira de expressão são de uma genialidade titânica. Rosa nos faz sentir próximos ao que se pode chamar de Literatura. Portanto, quem não o leu ainda, pare o que estiver fazendo e saboreie os prazeres encontrados no fabuloso mundo de João Guimarães Rosa.
1 comments:
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